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NOTA

As cantigas de amigo da Idade Média influenciaram a poesia portuguesa ao longo dos tempos. Aqui ficam alguns exemplos do século XX.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

CANTIGAS DE AMIGO


-- Cantigas do século XX
 
 
 
 

I

CANTAR DE AMIGO

À beira do rio fui dançar... Dançando
                Me estava entretendo,
                Muito a sós comigo,
Quando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
                Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes
                Certo se alegravam
                De me ver dançar,
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!

Que o amor é lume bem eu sei... que logo
                Que vi meu amigo
                Por entre os salgueiros,
Melhor eu dançava, já não só comigo,
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que aos seus olhos tristes
                Assim ofertava
                Minha formosura!

Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
                Nem eu me mostrara tão de mim segura...

(José Régio - Música Ligeira)
 
 

II

CANTIGA DE AMIGO

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência    tudo liso de espanto
e nem Camões   Virgílio   Shelley   Dante
-- o meu amigo está longe
e a distância é bastante.

Nem um som    nem um grito    nem um ai
tudo calado    todos sem mãe nem pai
Ah não    Camões   Virgílio   Shelley   Dante!
-- o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai    Camões   Virgílio   Shelley   Dante:
-- o meu amigo está longe
e a saudade é bastante.

(Ary dos Santos - Resumo in Obra Poética)
 
 

III

Fui à fonte lavar os cabelos,
minha mãe, e gostei eu deles
        e de mim, também.

Fui à fonte as tranças lavar,
e das tranças pus-me eu a gostar
        e de mim, também.

Lá na fonte, antes que eu partisse,
gostei tanto do que ele me disse
        e de mim, também.

(Natália Correia - Cantares dos Trovadores)
 
 

IV

COMO OUVI LINDA CANTAR POR SEU AMIGO JOSÉ

Se sabeis novas do meu amigo
novas dizei-me que vou morrendo
por meu amigo que me levaram
num carro negro de madrugada

Dizei-me novas do meu amigo
em sua torre tecendo os dias
dai-me palavras, pra lhe mandar
com ruas brisa domingos sol

Se sabeis novas de meu amigo
novas dizei-me que desespero
por meu amigo que longe espera
tecendo os dias tecendo a esperança

Mando recados não sei se chegam
leva-me o vento da noite triste
ou diz-me novas de meu amigo
que tece o tempo na torre negra

Que tece o tempo que tece a esperança
já da ternura fiz uma corda
ó vento prende-a na torre negra
que meu amigo por ela desça

Por essa corda feita de lágrimas
que meu amigo por ela desça
mande a esperança que vai tecendo
que eu desespero sem meu amigo

(Manuel Alegre - Praça da Canção)
 
 

V

CANÇÃO

Tinha um cravo no meu balcão;
         veio um rapaz e pediu-mo
         -- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
         veio um rapaz e pediu-mo
         -- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
         só não dei o coração;
         mas se o rapaz mo pedir
         -- mãe, dou-lho ou não?

(Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa)
 


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