O que uma análise mais profunda e reflexiva
sobre estes filmes nos pode proporcionar é uma visão alarmista
da investigação científica descontrolada e sem
prévios limites estabelecidos para evitar consequências
trágicas. O dono e fundador do parque não olhou a meios
para construir um espaço diferente, inovador, mas potencialmente
perigoso, que poderia pôr em risco a nossa supremacia enquanto
animais (o Homem).
As investigações científicas,
juntamente com a sua aplicação empírica. Os frutos
que delas brotam e os resultados (ou consequências) que delas
resultam nestes filmes não passam de simples, mas possíveis,
metáforas de uma realidade muitas vezes obscurecida por uma visão
da Ciência quase divina e transcendente.
Quando a Ciência impõe algo, de um modo
geral há uma aceitação imediata e irreflectida.
É o que acontece com o filme: este parque poder-se-ia tornar
num espaço económico importante pois atrairia muitos visitantes;
por outro lado também seria óptimo para a paleontologia
estudar ao vivo as espécies e tentar compreendê-las no
seu habitat; mas o “retorno” de milhares de anos no tempo
poderia ser fatal, pois o Homem nunca interagiu com tal ambiente, é-lhe
em parte desconhecido (nunca houve uma experiência directa). É
isto exactamente o que acontece: o Homem perante um primeiro imprevisto,
uma tempestade, fica indefeso, pois há uma falha eléctrica
e as vedações tornam-se inúteis e os dinossauros
conseguem facilmente destruí-las e juntar-se ao Homem que se
torna impotente perante a força e selvajaria de tais animais.
A ambição, a paixão (como é
o caso), o poder ou somente a curiosidade do Homem pelo conhecimento
podem levar este a praticar loucuras sem olhar a meios. Supera por si
mesmo as barreiras da moralidade e da ética para conseguir os
seus objectivos -- a loucura do Homem, ainda não enquanto cientista,
mas como cidadão e como humano. O cientista intervém aqui
como meio para conseguir esses objectivos, ele conduz o seu conhecimento
de forma a produzir uma nova informação que irá
testar. Mas esta testabilidade deverá ter em conta as conclusões
tiradas sobre as futuras consequências desse novo conhecimento,
apontando, de uma forma neutra, os seus prós e contras. O cientista
terá de vestir a pele de “Homem”, enquanto ser vivo
e cidadão, para assim, consoante os resultados previstos, pôr
em prática ou não esse conhecimento.
No filme, o que se deveria ter feito previamente para
evitar a tragédia (que não foi maior por o parque estar
situado numa ilha) teriam de ser análises e estudos sobre as
prováveis consequências inerentes a um investimento deste
género, mas ao que parece a ambição e paixão
falaram mais alto e o parque foi construído. Testes foram feitos,
mas nada previa o que se passou e tudo ficou descontrolado.
Neste caso específico, o próprio cientista,
enquanto Homem, não terá olhado a possíveis fracassos,
às consequências inerentes à construção
de um Parque Jurássico, passando por cima da própria Mãe
Natureza, alterando-lhe o curso natural; os dinossauros já há
muito estão extintos e o Homem, inconformado, decidiu rebuscar
estes animais de um passado longínquo, e acima de tudo mortífero,
para um presente menos austero e um pouco mais civilizado.
Deste modo o cientista, enquanto Homem e ser habitante
de um planeta povoado por uma incrível biodiversidade, deveria
ser o primeiro a tomar consciência dos seus actos, analisando-os
e contrabalançando-os de uma forma neutra e sensata para evitar
consequências trágicas para consigo mesmo e para com os
outros animais.
| Este texto faz parte de
um trabalho onde se olha a ciência através do cinema
e tem a seguinte estrutura: |