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Esta pode ser uma actividade de introdução / motivação à unidade A dimensão estética do programa de Filosofia do 10º anoMeninas (pormenor)
 
 

A acção bela:
reflexão sobre a arte

 
VVAA

Filosofía 1. Barcelona: Grupo Edebé, 2004, p. 246 (adaptado)

Aí está a turma inteira! Parecem todos muito animados.

— Oram vivam! – cumprimento. — Hoje estão muito contentes! Que é que se passa?

— Então já te esqueceste de que amanhã vamos para Madrid e ficamos lá o fim de semana? — pergunta o Jordão.

— Claro que sei! Até já preparei a minha mala…

— Que seca vos espera a todos! — ri-se o Xavier.

— Ou antes, que nos espera a todos, não? Ou estás a dizer que não vais?! — pergunta a Helena, admirada.

— Claro que não vou! Não sabias? — responde o Xavier. — Eu disse-o logo, quando a Directora de Turma falou desta visita ao Museu do Prado.

— Não me apercebi — desculpa-se a Helena. — E porque é que não vais? Estás com algum problema?

— Está! — responde a Rosa em vez do Xavier. — E um problema muito grande: o problema da arte e do Prado…

— Eu já estive no Prado — defende-se o Xavier. — Uma vez chega bem!

— Quando é que foi isso? — pergunto-lhe.

— Estive lá com os meus pais. Já foi há algum tempo.

— Sim, sim... — sorri a Helena — Hás-de ter visto muito…

— E o que é que há para ver? — responde Xavier, irónico. — Está cheio de quadros, todos parecidos. Vê-se um... e estão todos vistos.

— És mesmo bruto! — replica a Helena.

— Estou a topar… Vocês vão a Madrid porque vos interessa muito a arte. Muito! — defende-se.

— Julga o ladrão que todos são da sua condição — intervém a Rosa. — Eu vou para me divertir, claro, e para conhecer o Museu do Prado. Uma coisa não invalida a outra.

— Pois eu vou para ver As meninas — diz a Helena, muito séria.

As meninas?! — riem-se quase todos ao mesmo tempo.

— Essa está boa! — exclama o Jordão. — Não viste já esse quadro em fotografias?

— Claro, mas não tem nada que ver. Dizem que ao natural é alucinante — responde a Helena.

— Alucinações tens tu! — intervém a Rosa. — Se me falasses noutro quadro... Agora… As meninas é horrível!

— Está bem! — concordo. — Têm todos cara de bobos! Nunca percebi porque é que é tão famoso. Olha que são...!

— E daí? — responde a Helena. — Até parece que é um anúncio publicitário!... Não vejo onde está a relação.

— Mas há — observa a Rosa. — Uma pintura tem que ser bonita; se não, onde está a piada?

— Não há relação?! — intervém o Xavier. — Depende de para quê a queiras! Se a quiseres para adornar a sala de estar, então há muita.

— Estou a ver As meninas por cima do sofá, em minha casa. A minha mãe ficaria deslumbrada, de certeza. Diz bem com os retratos da minha família. São todos tão bonitos! — ironizo.

— Como tu! — interrompe-me a Helena. — E pensas que o tamanho do quadro é o da fotografia dos livros de arte?

— Imagino que deva ser um pouco maior — respondo com ironia. — Mas a minha casa também não é grande!

— Sabes quanto mede? — interroga-me a Helena.

— Não sei, não. Há-de ser como os outros, mais ou menos…

— Não fazes a mais pequena ideia! — exclama a Helena. — É enorme. Ao vivo, impressiona. Não é o mesmo ver uma pintura num livro ou contemplá-la ao natural. É como ouvir uma canção pela rádio ou num concerto. A arte tem que ser vivida em directo.

— Helena... não te sabia tão interessada pela arte. A mim, As meninas deixa-me indiferente, mas não me importaria de o ter em casa. Deve valer uma fortuna — intervém o Xavier.

— De certeza — garante o Jordão. — É incrível o que algumas pessoas chegam a pagar para ter obras de arte. Não percebo. Para ver quadros, vai-se a um museu… e pronto!

— Sim… e já viste bem o sainete que dá teres um Velázquez em casa?! — pergunto-lhe.

— Bem… quer dizer… Dá mais sainete um carro desportivo — responde-me. — Isso, sim, é que é uma obra de arte!

— Só pensais nisso: dinheiro e sainete. Na vida há outras coisas — esclarece a Rosa.

— Claro! — sorri o Jordão —, mas menos importantes.

— A sério! — continua a Rosa — não importa o que uma obra de arte custa, mas o que vale.

— E quem é que decide o que vale? Porque é que As meninas vale tanto e alguns graffiti que há por aí não valem nada? — pergunta o Xavier. — Gosto mais de alguns graffiti do que de As meninas.

— Bem, mas isso não depende de tu gostares ou não — replica a Rosa. — Depende de ter ou não qualidade artística.

— E quem é que decide o que tem qualidade artística? —contra-ataca o Xavier.

— Pensemos, por exemplo, nos quadros de Van Gogh. Se são arte a sério, explica-me porque é que ele vivia na miséria. Se são arte agora, também o deveriam ser então, não?

— É isso mesmo! — concorda o Jordão. — Tem graça que em vida não vendeu um único quadro e agora pagam milhões por eles...

— E às vezes alguns desses que são vendidos por tanto dinheiro são falsos. Há tempos, uns japoneses pagaram uma barbaridade de dinheiro por um exemplar de Os girassóis e depois descobriram que não era autêntico — explica o Xavier.

— Ora aí está! — exclamo. — Quê dizes a isto, Rosa? Continua a ser arte ou, como não tem a assinatura de Van Gogh, não vale nada?

— Sei lá eu! — responde a Rosa um tanto incomodada. — Até parece que eu sei tudo, não?!

  1. Certamente conheces o quadro As meninas, de Velázquez. Se for necessário, procura uma reprodução num livro de arte.

    - Que reacções te provocaram as intervenções de Helena, de Rosa e do narrador? Indica com quem estás de acordo.
    - Achas que a beleza ou a fealdade das personagens retratadas tem algo que ver com o valor de uma obra de arte?
    - Achas, como Rosa, que a fealdade é inimiga da arte? Pensa nalguma obra de que gostes, apesar de não se destacar pela beleza daquilo que retrata.

  2. Xavier, que não parece muito entusiasmado pela arte, afirma que As meninas só lhe interessa pelo valor económico que tem.

    - Achas que esta é a atitude apropriada para valorizar uma obra de arte? Porquê?
    - Além das referidas pinturas de Van Gogh, conheces mais algum caso em que o valor económico e o valor artístico nem sempre coincidam?

  3. No relato, Jordão afirma que, para ele, um carro desportivo é uma verdadeira obra de arte.

    - Concordas? Porquê?
    - Apesar de um automóvel poder ser mais ou menos bonito, qual é a característica que basicamente o distingue daquilo que tradicionalmente consideramos obras de arte?

©Mai/2005-Mai/2006

[da obra de onde foi traduzido este texto o Canto traduziu ainda
A primeira aula e
Amélie e o sentido da existência]


 
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