Aí está
a turma inteira! Parecem todos muito animados.
— Oram vivam! –
cumprimento. — Hoje estão muito contentes! Que é
que se passa?
— Então já
te esqueceste de que amanhã vamos para Madrid e ficamos lá
o fim de semana? — pergunta o Jordão.
— Claro que sei! Até
já preparei a minha mala…
— Que seca vos espera
a todos! — ri-se o Xavier.
— Ou antes, que nos
espera a todos, não? Ou estás a dizer que não
vais?! — pergunta a Helena, admirada.
— Claro que não
vou! Não sabias? — responde o Xavier. — Eu disse-o
logo, quando a Directora de Turma falou desta visita ao Museu do
Prado.
— Não me apercebi
— desculpa-se a Helena. — E porque é que não
vais? Estás com algum problema?
— Está! —
responde a Rosa em vez do Xavier. — E um problema muito grande:
o problema da arte e do Prado…
— Eu já estive
no Prado — defende-se o Xavier. — Uma vez chega bem!
— Quando é que
foi isso? — pergunto-lhe.
— Estive lá com
os meus pais. Já foi há algum tempo.
— Sim, sim... —
sorri a Helena — Hás-de ter visto muito…
— E o que é que
há para ver? — responde Xavier, irónico. —
Está cheio de quadros, todos parecidos. Vê-se um...
e estão todos vistos.
— És mesmo bruto!
— replica a Helena.
— Estou a topar…
Vocês vão a Madrid porque vos interessa muito a arte.
Muito! — defende-se.
— Julga o ladrão
que todos são da sua condição — intervém
a Rosa. — Eu vou para me divertir, claro, e para conhecer
o Museu do Prado. Uma coisa não invalida a outra.
— Pois eu vou para ver
As meninas — diz a Helena, muito séria.
— As meninas?!
— riem-se quase todos ao mesmo tempo.
— Essa está boa!
— exclama o Jordão. — Não viste já
esse quadro em fotografias?
— Claro, mas não
tem nada que ver. Dizem que ao natural é alucinante —
responde a Helena.
— Alucinações
tens tu! — intervém a Rosa. — Se me falasses
noutro quadro... Agora… As meninas é horrível!
— Está bem! —
concordo. — Têm todos cara de bobos! Nunca percebi porque
é que é tão famoso. Olha que são...!
— E daí? —
responde a Helena. — Até parece que é um anúncio
publicitário!... Não vejo onde está a relação.
— Mas há —
observa a Rosa. — Uma pintura tem que ser bonita; se não,
onde está a piada?
— Não há
relação?! — intervém o Xavier. —
Depende de para quê a queiras! Se a quiseres para adornar
a sala de estar, então há muita.
— Estou a ver As meninas
por cima do sofá, em minha casa. A minha mãe ficaria
deslumbrada, de certeza. Diz bem com os retratos da minha
família. São todos tão bonitos! — ironizo.
— Como tu! — interrompe-me
a Helena. — E pensas que o tamanho do quadro é o da
fotografia dos livros de arte?
— Imagino que deva ser
um pouco maior — respondo com ironia. — Mas a minha
casa também não é grande!
— Sabes quanto mede?
— interroga-me a Helena.
— Não sei, não.
Há-de ser como os outros, mais ou menos…
— Não fazes a
mais pequena ideia! — exclama a Helena. — É enorme.
Ao vivo, impressiona. Não é o mesmo ver uma pintura
num livro ou contemplá-la ao natural. É como ouvir
uma canção pela rádio ou num concerto. A arte
tem que ser vivida em directo.
— Helena... não
te sabia tão interessada pela arte. A mim, As meninas
deixa-me indiferente, mas não me importaria de o ter em casa.
Deve valer uma fortuna — intervém o Xavier.
— De certeza —
garante o Jordão. — É incrível o que
algumas pessoas chegam a pagar para ter obras de arte. Não
percebo. Para ver quadros, vai-se a um museu… e pronto!
— Sim… e já
viste bem o sainete que dá teres um Velázquez em casa?!
— pergunto-lhe.
— Bem… quer dizer…
Dá mais sainete um carro desportivo — responde-me.
— Isso, sim, é que é uma obra de arte!
— Só pensais nisso:
dinheiro e sainete. Na vida há outras coisas — esclarece
a Rosa.
— Claro! — sorri
o Jordão —, mas menos importantes.
— A sério! —
continua a Rosa — não importa o que uma obra de arte
custa, mas o que vale.
— E quem é que
decide o que vale? Porque é que As meninas vale
tanto e alguns graffiti que há por aí não
valem nada? — pergunta o Xavier. — Gosto mais de alguns
graffiti do que de As meninas.
— Bem, mas isso não
depende de tu gostares ou não — replica a Rosa. —
Depende de ter ou não qualidade artística.
— E quem é que
decide o que tem qualidade artística? —contra-ataca
o Xavier.
— Pensemos, por exemplo,
nos quadros de Van Gogh. Se são arte a sério, explica-me
porque é que ele vivia na miséria. Se são arte
agora, também o deveriam ser então, não?
— É isso mesmo!
— concorda o Jordão. — Tem graça que em
vida não vendeu um único quadro e agora pagam milhões
por eles...
— E às vezes alguns
desses que são vendidos por tanto dinheiro são falsos.
Há tempos, uns japoneses pagaram uma barbaridade de dinheiro
por um exemplar de Os girassóis e depois descobriram
que não era autêntico — explica o Xavier.
— Ora aí está!
— exclamo. — Quê dizes a isto, Rosa? Continua
a ser arte ou, como não tem a assinatura de Van Gogh, não
vale nada?
— Sei lá eu! —
responde a Rosa um tanto incomodada. — Até parece que
eu sei tudo, não?! |