Este ano, viemos
para as aulas menos alunos do que no ano passado. Além disso,
há um rapaz que vem em cadeiras de rodas. Chama-se Luís
e é paralítico. De nós todos é o Luís
quem tem mais sentido de humor e, ainda que fale devagar e com dificuldade,
está sempre a sorrir e a brincar.
As raparigas do meu grupo são
a Helena, a Irene, a Marta, a Palmira, a Yolanda e a Zélia;
os rapazes, o Ireneu, o Jordão, o Louis, o Ali, o Xavier
e eu, o Rafa.
Ali é filho de uns imigrantes
marroquinos que têm um bar no meu bairro há já
alguns anos. Dos outros, uns nasceram aqui, como eu — outros,
um pouco mais longe.
Às vezes discutimos
acerca das terras de origem dos nossos pais, os costumes, a religião,
as diferenças entre uns lugares e outros, e outros assuntos
que nos vêm à cabeça. No entanto, nada quebra
a nossa amizade, nem sequer o sermos de diferentes equipas de futebol,
porque, ao fim e ao cabo, que mais dá…?
— Aí vem
ela! — interrompe o Jordão. — É a professora
de Filosofia. Vamos lá ver que tal é…
Entra, olha-nos durante uns
instantes, abre o livro, volta a olhar-nos, fica pensativa como
se não soubesse por onde começar... Levanto a mão
e pergunto:
— Não vai
dizer-nos em que consiste esta matéria? É a primeira
vez que temos filosofia. Como são os testes? O que é
que temos que fazer para passar?
— Boa pergunta!
Filosofia é o que fazem os filósofos, um campo vastíssimo
do saber que nasce na Antiguidade. Há problemas e mistérios
que causaram espanto ao ser humano e sobre os quais ele anda há
séculos a pensar. Tudo isto que nos inquieta tem relação
com a filosofia. Mas, de momento, parece-me mais interessante que
penseis em filosofar do que na filosofia. Filosofar é pensar
em liberdade, por si mesmo, crítica e criativamente, sem
nunca rejeitar tanto os problemas como as soluções.
Começamos bem! Não
percebi nada! A Marta levantou a mão, talvez lhe peça
que esclareça a explicação.
— Eu já
pensei muitas vezes sobre: de onde viemos e para onde vamos, ou
seja, como começou tudo e se algum dia o nosso universo terá
fim… e coisas do género… Isso é que é
filosofar? — pergunta a Marta.
— Sim. E outras
coisas. Toda a gente pensa. Mas nem todo o pensamento é pensamento
filosófico. Este caracteriza-se pela radicalidade das perguntas
e pelo rigor crítico. O filósofo suspeita das verdades
não provadas e até duvida da verdade provada. Bom…
iremos falando disso. Agora preferia falar de como gostaria que
fossem as nossas aulas. Queria que conseguíssemos partilhar
dúvidas e intuições e ser capazes de nos escutar
com atenção e respeito, conscientes de que até
as opiniões mais incríveis podem estar certas. Como
aconteceu quando uns loucos diziam que a Terra era redonda e girava
em volta do Sol.
A professora olha-nos e prossegue:
— Na aula, além
disso, colocarei dúvidas e forçar-vos-ei a que procureis
as vossas próprias soluções. Ajudar-vos-ei,
mas o trabalho de aprender será vosso. Portanto, preparai-vos
para pesquisar em dicionários, fazer exercícios, trabalhar
em equipa, organizar debates… A sério, ninguém
chega longe sem esforço. Dizer o contrário é
uma fraude. Bom… chega, por hoje. Alguma pergunta?
Ficámos todos mudos
e quietos… Não era nada disto que esperávamos.
Ninguém pergunta nada. Não esclareci as outras dúvidas,
mas não interessa. O que fiquei a perceber foi que esta é
uma disciplina muito especial!
— Óptimo!
Depois de amanhã voltaremos a ver-nos. Até lá,
não se esqueçam: filosofar é pensar com
liberdade!
Neste momento toca a campainha
e começamos a sair da aula.
|