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Com o presente texto (e O amor como absurdo) celebrámos o dia dos namorados de 2004.
 
 

 

O QUE É O AMOR?

por Francesco ALBERONI - Amo-te. 9ª ed. Chiado : Bertrand, 2003, p. 277-281

O que é o amor? É uma pergunta para a qual temos de encontrar uma resposta dentro da nossa teoria. Para vos responder tomemos como ponto de partida a experiência-chave do enamoramento bilateral. Duas pessoas, num dado momento da sua vida, iniciam uma mudança, tornam-se disponíveis para se separarem dos objectos de amor anteriores, das ligações anteriores, para dar origem a uma nova comunidade. Entram então em estado nascente, num estado fluido e criativo, no qual se reconhecem reciprocamente e tendem para a fusão. De tal modo eles formam um nós, uma colectividade de altíssima solidariedade e altíssimo erotismo. É no seio deste nós que cada um dos indivíduos realiza os seus sonhos eróticos e não eróticos, as suas aspirações, as suas possibilidades não expressas. A elevada solidariedade, o imenso prazer erótico que dão um ao outro, permite a cada um sentir e exercer enormes pressões sobre o outro, pressões que levam à formação de um projecto comum de uma visão do mundo comum. O novo casal nascente é animado por uma energia inesgotável e por um entusiasmo transbordante. O mundo parece-lhe maravilhoso, e infinitas as possibilidades de acção. Elabora uma nova concepção da vida, reestrutura todas as relações internas e externas, constrói um novo nicho ecológico.

Assim, a energia criativa, fluida, do estado nascente transforma-se em estrutura, em norma. São princípios, regras, convenções, hábitos, construídos com ímpeto, com a mais entusiasta adesão, porque ocorrem no momento do máximo impulso para a fusão. São pactos jurados que rnantêm a esperança e a promessa do estado nascente, onde transparece sempre o absoluto. Com a passagem da instituição para o estado nascente dera-se uma conversão da estrutura — família, casa, filhos, amigos, ideias consolidadas — em energia. Agora dá-se o contrário. É a energia que se traduz de novo em estrutura: nova casa, novos amigos, nova concepção do mundo.

Perguntemo-nos agora: o que é o amor como emoção, sentimento, experiência subjectiva, estado de espírito, nesta perspectiva? O amor é o lado emocional interior do nascimento de uma nova colectividade e de um novo eu. E a pessoa amada é o eixo, o gonzo em torno do qual acontece esta reconstrução. É a experiência da minha fusão com ela formando uma nova entidade que me refaz, me recria e recria o mundo em que vivo. É a experiência de me descobrir parte de um novo mundo, de um novo céu e de uma nova terra. E a pessoa amada é a porta que me dá acesso a tudo isto.

O amor como emoção de amor, como ímpeto, languidez, desejo, espasmo, sonho, é portanto a energia criativa na sua manifestação. A energia criativa que, atravessando-me, me utiliza como substância para edificar um novo mundo e um novo eu. Por isso nós amamos o que nos está criando e o que estamos criando. De que somos ao mesmo tempo filhos e pais.

Isto, no enamoramento. Poderemos aplicar a mesma definição também a outras formas de amor que conhecemos? Comecemos partindo do amor da mãe pelo seu filho. O que é que dissemos? Nós amamos o que estamos criando e o que nos está recriando. A mãe, ainda quando está à espera do filho e depois quando o amamenta, o alimenta, o cria, põe em prática a criação de um ser através do qual se recria a si mesma. Cria uma nova comunidade com um novo mundo dentro do qual ambos serão mudados. É a co-relação de um mundo. A criança não é passiva. Responde aos estímulos e leva-a a redefinir-se continuamente a si mesma, a ela e ao seu mundo. Este processo continuará durante toda a vida. E é por este motivo que o amor da mãe pelo filho e do filho pela mãe se mantém. Mantém-se porque se renova continuamente.

Por que motivo, podemos agora perguntar, este tipo de amor não corre o risco de desaparecer como acontece no casal? Por que motivo resiste às mais fortes frustrações, às desilusões mais amargas? Porque para o casal entram dois indivíduos já formados, cada um com as suas ligações amorosas individuais e colectivas, com as suas concepções do mundo. No enamoramento eles desestruturam o seu Eu anterior, o seu mundo anterior. Mas só em parte. O processo de co-criação do casal acontece através de choques, provas, compromissos. Cada um faz renúncias, mas mantém firmes alguns valores. Com o passar do tempo, as suas personalidades podem ter desenvolvimentos divergentes. O universo em comum entre pais e filhos é imensamente mais vasto. O processo de ajustamento recíproco acontece quando a criança ainda é plástica. E continua, dia após dia, sob a orientação do pai que gere a mudança e evita que surjam conflitos insolúveis, afastamentos insuportáveis. Estes só podem aparecer na adolescência ou na vida adulta.

Vejamos agora a relação amorosa que se estabelece na amizade. Esta baseia-se no princípio do prazer. Não se constitui a quente, no processo de estado nascente. Não há fusão inicial, ardente, arriscada, apaixonada. A amizade constitui-se lentamente, encontro após encontro, no qual cada um lança uma ponte entre o anterior e o seguinte. É o precipitado histórico de relações bem sucedidas, gratificantes, animadoras, divertidas. Também os dois amigos tendem a uma fusão parcial, também eles tendem a elaborar uma visão do mundo comum. Também eles constituem um nós. Mas sem a violenta e radical destruição do mundo anterior. Se entre eles existirem desde o princípio divergências nas suas crenças políticas e religiosas, diversidade de gostos, de hábitos, de opinião, não há um processo de fusão em que são dissolvidas como num crisol. Permanecem e tornam a relação agradável. Os amigos mantêm-se unidos porque descobrem, pouco a pouco, que têm afinidades electivas, porque fazem um esforço voluntário de ajustamento recíproco, procurando o que os une e não o que os separa. Mas se aparecerem divergências ideológicas, contrastes de interesse, ou se alguém se comportar de forma eticamente incorrecta, a relação amigável quebra-se e, normalmente, a ruptura é irremediável. O amigo pode perdoar a mentira, a traição, mas as coisas não voltam a ser como antes. A amizade é a forma ética do eros. Também o sentimento amoroso da amizade depende da construção comum de um mundo e da sua identidade. Intensifica-se nos momentos de mudança, de crise, quando nos abrimos ao amigo, lhe pedimos apoio e conselho. Intensifica-se com a troca de experiências, enfrentando juntos os problemas, combatendo lado a lado contra um adversário, uma ameaça, como dois caçadores, como dois guerreiros.

Vejamos agora a admiração, a adoração de um ídolo em cuja base pusemos o mecanismo da indicação. Quando este interesse é muito forte, a personagem torna-se uma componente importante dos processos de definição de si mesmo e do mundo. Pensemos no que representam, para os adolescentes, os campeões desportivos, as estrelas dos espectáculos, os cantores de música ligeira. Tomam-nos como modelos de identificação. As jovens participam das vicissitudes amorosas do seu ídolo preferido. Às vezes fantasiam uma vida de casal com eles.

Ainda mais profundo é o processo que acontece na relação com o chefe carismático de um movimento político ou religioso. O chefe carismático é aquele que interpreta a situação histórica, que dá um sentido ao mundo, que estabelece a meta, a direcção. O amor pelo chefe carismático assemelha-se àquele que sentimos pela pessoa de quem estamos enamorados. E se o chefe continuar como tal durante muito tempo, o amor por ele fica parecido com o amor pela mãe ou pelo pai, e forma um ponto de referência fixo para todos os problemas da vida.

Esta definição do amor é válida também para o mecanismo da perda. Na perda o nosso mundo consolidado, familiar, os nossos objectos estáveis de referência, as nossas metas, são subvertidos, ameaçados de destruição. Encontramo-nos repentinamente perante o abismo do nada. Somos então forçados a reexaminar o valor de todas as coisas que temos, a repensarmo-nos a nós mesmos, a nossa vida, o nosso futuro. A redefinir o que tem valor e o que não tem. A luta para arrebatar o nosso objecto de amor individual ou colectivo à perda é, por isso, uma re-construção do mundo. Não é o aparecimento de um mundo novo, não é a marcha em direcção à Terra Prometida. Mas é sempre a marcha em direcção à pátria perdida cujo valor e beleza se redescobriu. À pátria que se tem de reconquistar com a consciência de que é o máximo bem, e que por ela vale a pena até morrer.

Vimos assim que todas as formas de amor, tanto as que surgem do estado nascente como dos outros mecanismos — o prazer, a indicação e a perda —, comportam sempre a criação ou a recriação de uma colectividade de que fazemos parte e que nos plasma. Podemos portanto concluir dizendo que o amor é o aspecto subjectivo e emocional do processo em que nós geramos, ao mesmo tempo que por outro lado somos gerados, por algo que nos transcende.

De tudo o que dissemos segue-se uma importantíssima consequência. Que, se o amor durar, se se prolongar no tempo, significa que continuam a funcionar os processos, os mecanismos que funcionaram no momento inicial, da revelação, da descoberta, do enamoramento. O amor, se existir, enquanto existir, é sempre «nascente». É sempre descoberta, revelação, admiração, adoração, desejo de união com algo que nos transcende e que dá ordem e sentido ao mundo. A pessoa que amamos é sempre, no momento em que a amamos, aquilo que se nos está revelando como sendo o eixo do mundo, aquilo em que transparece a essência do mundo, o ordenador do mundo. Por isso o amor é sempre arrepio do absoluto no contingente, algo de misterioso, maravilhoso e divino. E quando é correspondido, é dom, graça que pede louvor e reconhecimento.

©Fev/2004


 
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