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NOSSA MISSÃO

por Luís Fernando Veríssimo - in Actual [suplemento do jornal Expresso], 6.Set.2003

Você e eu estamos na Terra para nos reproduzirmos. Tudo o mais que fazemos, tudo o mais que nos acontece, ou é decorrência ou é passatempo. Nossa missão é transmitir os nossos genes, multiplicar a nossa espécie e dar o fora. A Natureza só se interessa pelos nossos anos férteis. O que vem antes e depois é preparação e epílogo, ou entra no pacote como brinde. Se a Natureza quisesse optimizar seus métodos, como um empresário moderno, já nasceríamos púberes e morreríamos assim que nossos filhos, que também nasceriam púberes, pudessem criar seus filhos (púberes) sem a ajuda dos avós. Daria, no total, uns 35, 40 anos de vida, e adeus. O que resolveria a questão demográfica do planeta e, claro, os problemas da Previdência. Mas a Natureza nos dá o resto da vida, a infância e a velhice e todos os prazeres extra-reprodutivos do mundo, inclusive os sexuais, como um chaveiro. Pela missão cumprida.

A laranjeira não existe para dar laranja, existe para produzir e espalhar sua própria semente. A fruta não é o objectivo da planta frutífera, é o que ela usa para carregar suas sementes, é o seu estratagema. Agradecer à laranjeira pela laranja é não entendê-la. Ela não sabe do que nós estamos falando. Suco? Doçura? Vitamina C? Eu?! Você e eu ficamos aí especulando sobre o que a vida quer de nós, e só o que a vida quer é continuar. Seja em nós e na nossa prole, seja na minhoca e na sua. Nossa missão, nossa explicação, é a mesma do rinoceronte e da anémona. Estamos aqui para fazer outros iguais a nós. Isto que chamamos, carinhosamente, de «eu», com suas peculiaridades e sua biografia única, não é mais do que uma laranja personalizada. Um estratagema da Natureza, a polpa com que a Natureza protege a nossa semente e assim assegura a continuação da vida. Enfim, um grande mal-entendido. E os que passam pelo mundo sem se reproduzir? São caronas. Ganham o brinde mesmo sem merecer o pacote. A Natureza não discrimina.

Quando Marte esteve perto assim da Terra pela última vez, há 60 mil anos, o que havia de mais parecido com gente era o homem de Neandertal. Há pouco ficamos sabendo que nem parente nosso ele era, mas já devia existir no mundo, então, leitor, em algum pré-chimpanzé, o seu DNA. O meu não, porque meus ancestrais não descendem de um casal de macacos, como os de todo o mundo: foram adoptados. O inglês Richard Dawkins usou uma imagem poética da Bíblia, «E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se dividia e se tornava em quatro braços» (Génesis, 2:10), como epígrafe do seu livro River out of Eden, no qual ele fala da evolução como um rio de genes que brota da nascente da humanidade e corre através do tempo, bifurcando-se, quadrifurcando-se, etc., trazendo o código vital de todos os seres que existem. E todos os seres vivos, hoje, têm em comum genes vencedores, ou que encontraram portadores bem sucedidos e não enveredaram por braços mortos do rio. Todos os nossos ancestrais, sem excepção, viveram pelo menos até a puberdade e encontraram pelo menos um parceiro heterossexual com o qual tiveram pelo menos uma relação sexual. Somos todos descendentes de sobreviventes férteis. Só o que a Natureza nos pede é que não os decepcionemos.

Marte voltará a se aproximar da Terra daqui a 284 anos. Provavelmente, não estarei mais aqui, o que não me impede de especular sobre que tipo de gente estará. A evolução humana já acabou e nenhum aperfeiçoamento da espécie é possível ou desejável depois da Patrícia Pillar ou a humanidade terá mudado em 2287? Nossas alterações físicas têm acontecido lentamente. Certamente não haverá tempo para a correcção das distracções mais evidentes da evolução, como a permanência dos mamilos nos homens e das unhas nos pés. Mas daqui a 284 anos nasceremos, por exemplo, com celulares colados no ouvido? Uma modificação fascinante é possível. Os primeiros homens tinham a pele negra para protegê-los do Sol. Só depois da diáspora africana e da ocupação do Hemisfério Norte é que a nossa pele começou a clarear. Com o aquecimento progressivo da Terra, não é de mais especular que em 2287 seremos todos, de novo, negros. Até os noruegueses. Isso se ainda sobrar gente na Terra e observadores de Marte não concluírem que os sinais de civilização eram enganosos e nunca houve realmente vida inteligente no planeta azul.

Sobre o sentido da existência o Canto tem outras reflexões:

A unidade final do programa de I. à Filosofia do 11º ano (2003/2004) tem o título O ser humano e o sentido da existência. Encontram-se aí ligações a outros recursos, designadamente,

o texto O sentido da vida, onde o autor (F. Savater) mostra que a pergunta pelo sentido da vida tem um carácter religioso, tentando reposicioná-la de modo a que fique filosoficamente válida.

 

Janeiro/2004

 


 
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