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Pretexto para a publicação deste texto: o Dia da Mulher de 2005, celebrado a 8 de Março.

 
 

 

HOMENS, MULHERES
e FILOSOFIA

por Javier SÁDABA - La filosofía contada con sencillez. Madrid: Maeva Ediciones, 2002, p. 18-20

O quê dizer sobre o filósofo como homem ou como mulher? Antes de mais, apesar da abundante bibliografia que nos últimos tempos pretende fazer justiça às mulheres filósofas, há que assinalar que é um facto que os filósofos que deixaram marca e nos condicionaram e condicionam com a sua influência foram homens. Tanto assim é que o escritor Graves pensava que a filosofia, na sua origem, é uma rebelião do homem prosaico contra o feitiço de uma sociedade pré-indoeuropeia, amamentada culturalmente pelas deusas mães. A filosofia seria o último golpe de misericórdia contra a poesia do feminino, contra aquela idílica Velha Europa à qual a lógica dos gregos impõe, por fim, a cultura da razão face à muito mais ampla vida do coração. Neste sentido Sócrates, ao afastar de junto de si a sua mulher Xantipa quando estava para morrer, constituiria o símbolo mais conseguido da vitória do masculino face ao feminino. Penso que a interpretação em questão, por muito atractiva que possa ser, é uma meia verdade, porque o poder do homem sobre a mulher, pelo menos no que à parte superficial da sociedade se refere, não é um assunto que diga respeito apenas à filosofia. Também não acredito que a filosofia seja a última justificação da ascensão masculina aos postos de comando. O fenómeno não é tão simples. Em qualquer caso, não há outro remédio senão conceder que a filosofia, tal como a ciência, cozinhou-se entre homens e que, como tudo e felizmente, as coisas começam a mudar a maior velocidade do que poderíamos prever.

São os filósofos seres intratáveis? Ou são antes uma espécie algures situada entre o monge e o cientista? O filósofo pode parecer um personagem brumoso, obscuro, com um estranho relacionamento com o mundo. Um personagem, em suma, difícil e atípico. Em parte é verdade. Schäferstein, num brilhante livro sobre a vida dos filósofos [Los filósofos y sus vidas, Cátedra, Madrid, 1984], oferece um quadro bastante ilustrativo. De vinte e dois ilustres filósofos, apenas oito se casam. Além disso, são de todos conhecidas as palermices que das suas plumas saíram no momento de falar das mulheres. Nietzsche aconselhava-nos a levar chicotes quando fôssemos com elas; Schopenhauer colocou os pensamentos femininos em relação inversa com o comprimento dos seus cabelos; Hume considerava-as oportunas naquelas reuniões em que as conversas descambam para o frívolo, e Descartes dizia, é fácil supor que com tonta malícia, que queria escrever de modo tão claro que até as mulheres o compreendessem. Nenhum dos citados, certamente, manteve uma relação estável com uma mulher. Os filósofos, em geral, quando falaram sobre a mulher ou sobre a guerra brilharam. Ou, para ser sinceros, caíram no ridículo.

A filosofia é uma actividade apaixonada. Creio ser essa uma das razões para os filósofos permanecerem celibatários. Responder-me-ás que os artistas ou os cientistas são igualmente indivíduos dedicados de corpo e alma às suas obras e investigações. É verdade, só que cada actividade produz as suas próprias reacções. E do mesmo modo que o cientista e o artista se comportam de maneira bem distinta (basta comparares um Picasso com um Planck), também o filósofo reage de modo particular. Talvez em filosofia se junte a parte erótica com o pensamento e se produza uma criação interna que não encontra paralelo na obra de arte ou na experimentação. Talvez o filósofo pense que, como Aladino com a lâmpada, vai encontrar a pedra filosofal ou as Ilhas Encantadas. Exagera, sem dúvida. Mas por trás do exagero aparece a disposição para um saber sem limites, a vida dedicada à verdade, aconteça o que acontecer. Dizia Heidegger que o pensador é aquele que dá que pensar. Efectivamente, dar que pensar é entrar numa nora de pensamentos que não param. Dir-me-ás que, então, lhes falta um parafuso. Responder-te-ei que esse é um perigo. Acrescento, no entanto, que tudo o que verdadeiramente nos interessa está à beira da ruptura pessoal, inclusivamente do patológico. Por isso estou disposto a desculpar as estridências dos filósofos em questão. Tiremos-lhes a casca da sua demasia, do seu entusiasmo ou da sua unilateralidade, e ficaremos com o humano, demasiado humano que, em última análise, a todos nos retrata. A extravagância do filósofo é como a do enamorado, como a do vidente ou a daquele que descobriu um novo mundo. Se os reduzirmos a uma mais moderada situação, tê-los-emos a mostrar-nos, como num espelho, o que a todos nos interessa. Para além do mais, e para não cairmos no mito da extravagância, há filósofos, como B. Russell, que casaram várias vezes, estiveram implicados na luta contra a guerra e por isso bateram com o costelame na prisão.

©Mar/2005

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