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LEXICON |
Movimento literário e artístico surgido na Europa no princípio do séc. XIX, introduzido em Portugal por Almeida Garrett. É caracterizado fundamentalmente pela sua clara oposição ao neo-classicismo e academicismo árcades: a evocação de cenários melancólicos e ambientes exóticos, com o culto da fantasia e do mistério (por ex., na ópera Undine, do compositor romântico E.T.A. Hoffmann, um cavaleiro casa com uma ninfa); a evocação de temas medievais, em contraposição ao classicismo grego; a exaltação do individualismo (do "eu" como medida do Universo), da expressão e emoção subjectivas, e o amor pela paisagem; e o aparecimento de um profundo misticismo e expressividade. Filosoficamente, os primeiros fundamentos teóricos do movimento foram elaborados na Alemanha, graças aos filósofos do idealismo clássico (também chamado romantismo filosófico): Fichte, Schelling e Hegel, que conceberam uma profunda crítica em relação ao espírito racionalista do século anterior. A crítica idealista do iluminismo projectou para o futuro o desejo de perfeição e harmonia que até então se orientava para os cânones da tradição clássica, resgatando o valor do sentimento como força espiritual (ver Lexicoteca: moderna enciclopédia universal. Lisboa : Círculo de Leitores, 1986-1988)
||| No seu Diccionario de Filosofía [dados bibliográficos] José Ferrater Mora nota que se tem discutido muito sobre se o termo 'romantismo' designa apenas uma certa época da vida e da cultura ocidentais ou antes pode ser considerado como expressão de uma constante histórica. Os historiadores inclinam-se para a primeira concepção, enquanto alguns filósofos da história e da cultura preferem a segunda. Segundo esta última, o romantismo tem estado presente em várias épocas e constitui uma das dimensões da alma fáustica e dionisíaca em oposição à alma apolínea. Assim, na cultura grega predominaria a componente clássica; na germânica, a romântica — embora nalgumas ocasiões as duas concepções cheguem a fundir-se.
Também A Música no Tempo de James Galway (Lisboa: Gradiva) sustenta: "Os elementos românticos sempre estiveram e estão presentes na música" (p. 169): podemos referir as qualidades românticas do clássico Beethoven ou constatar que "K. P. E. Bach era também essencialmente romântico".
||| O Romantismo é "o oposto do classicismo, mas a jusante e quanto ao fundo (diferentemente do barroco, que se lhe oporia mais a montante, pelo menos em França, e quanto à forma). Os românticos têm necessidade de regras para as violar, de tradições para se lhes oporem, de mestres para deles se libertarem, de razão, enfim, para quererem dela se libertar ou para lhe preferirem os sentimentos... No que é um movimento segundo, e frequentemente secundário. Mas ele exprime também qualquer coisa de essencial à alma humana, que é a infelicidade desvairada de durar, de não ser Deus, de ter que acabar... O tempo é o seu mal e a sua razão de ser. De onde, sempre, a nostalgia, que é o sentimento romântico por excelência: cinza, para o poeta, do fogo que o consome! A verdadeira vida está algures — e nós estamos aqui. O romantismo está por isso condenado à dupla linguagem ou aos além-mundos [arrière-mondes], ao idealismo ou à decepção. Aspirando ao infinito, não encontra senão o finito. Procurando o absoluto, não encontra senão o eu. Quereria fundir-se na unidade, mas choca permanentemente com o múltiplo ou a dualidade. Quereria abandonar-se à inspiração, mas só com o trabalho é bem sucedido. Exalta a paixão, o imaginário, a sensibilidade... E desemboca apenas no aborrecimento e no tédio. A fuga é a sua tentação; o sonho, a sua desculpa. É uma arte passional, a que quase só resta a escolha entre o onirismo e a religião: estética do exílio ou da evasão, do mistério ou do dilaceramento. Isto não retira nada aos maiores (Novalis e Hölderlin, Byron e Keats, Delacroix, Berlioz, Nerval...), mas impede-me seguramente de os seguir. Para o meu gosto, apenas [Victor] Hugo constitui excepção. Só que ele é a excepção absoluta: excede o romantismo tanto quanto Bach excede o barroco. É o único a rejeitar a fórmula injusta e profunda de Goethe: «Chamo clássico ao que é são, romântico ao que é doentio». Ou antes, rejeitá-la-ia, se uma excepção, seja ela a mais notável, pudesse invalidar... uma definição". (André COMTE-SPONVILLE - Dictionnaire philosophique, verbete Romantisme [dados bibliográficos aqui]) [tradução de A. R. Gomes]||| Em música, os principais representantes do romantismo são Weber, Mendelssohn, Schubert, Schumann, Chopin, Lizst e Berlioz. A Festa da Música de 2004 (um evento ligado, em Portugal, ao Centro Cultural de Belém) foi concebida em torno de 4 compositores da geração (romântica) de 1810: Chopin, Schumann, Liszt e Mendelssohn. Na obra dedicada a Schumann e editada em português (pelo jornal Público e pelo Centro Cultural de Belém) no âmbito da festa, a autora Brigitte François-Sappey escreve:
"Nascido a 8 de Junho de 1810, dezasseis meses depois de Felix Mendelssohn, três meses depois de Frédéric Chopin e dezasseis meses antes de Franz Liszt, Robert Schumann é o centro desta geração romântica, iniciada por Hector Berlioz e que se estende a Ferdinand Hiller, Stephen Heller, Charles-Valentin Alkan, Richard Wagner, Giuseppe Verdi ou a Adolph Henselt. Enquanto crítico musical, o mais acutilante na época, Schumann é uma bússola para os seus pares, com excepção de Verdi, quando sobre eles é levado a pronunciar-se. A sua elevada cultura e a sua posição autorizam-no a ser, assim, o arauto da "nova era poética" que ele deseja e convoca.
Nem todos evoluem ao mesmo ritmo. Chopin em Varsóvia, Liszt em Raiding e depois em Viena, Alkan em Paris são prodígios do piano, enquanto os dois saxões, Schumann e Wagner, tal como Berlioz, afirmam os seus dons literários antes de fulgurantemente se converterem à música. Resta o caso, raro, de Mendelssohn, a incarnação da precocidade, o único capaz de acumular obras primas ainda em vida de Weber, Beethoven e Schubert — os três mestres desaparecidos em 1826, 1827 e 1828. Nestes anos de transmissão de poder, a maioria está galvanizada por Beethoven e Weber e já marcada pela figura cimeira de Bach. Apenas Schumann confronta o génio de Schubert. Uns são mais sedentários, outros mais itinerantes e por isso mais europeus; mas todos, com excepção de Schumann, estão animados pelo ardente desejo de conquistar Paris.
Gémea pelo nascimento, a "geração de 1810" não o é perante a morte. Mendelssohn morre em 1847, Chopin em 1849 e Schumann em 1853. Enquanto Liszt e Alkan compõem ainda páginas proféticas à beira dos anos 1880, Wagner assiste à apoteose de Parsifal em 1882 e Verdi à de Falstaff em 1893.
Duas figuras de mulher iluminam esta geração. A mais velha, Fanny Mendelssohn, tão dotada como o irmão Felix, atrai em Berlim a intelligentsia europeia; a mais jovem, Clara Wieck, pianista e compositora prodígio, torna-se na fascinante embaixatriz da arte dos sons. Fanny é a primeira a desaparecer do círculo artístico, seis meses antes do seu irmão; Clara, a última, quarenta anos após o falecimento de Robert Schumann, seu marido".||| O capítulo V da secção O idealismo alemão da História da Filosofia de Julián Marías [p. 322-330 — elementos bibliográficos aqui] trata do pensamento da época romântica, com destaque para Schleiermacher, Herder, Jacobi, Herbart, Krause, Sanz del Rio, o pensamento socialista e Schopenhauer. Aí se apresenta o romantismo como procedente, sobretudo, do movimento literário Sturm und Drang (que, com outro movimento predominantemente religioso, o pietismo, no século XVIII põem em primeiro plano o sentimento e a vida afectiva). Também A Filosofia no século XX [dados bibliográficos aqui] analisa "A Filosofia do Romantismo" (p. 232-233).||| Das leituras aqui sugeridas, a análise de Breve história da filosofia[1] parece-me ser a que tem mais interesse filosófico (ver p. 148-152). O romantismo é caracterizado como o movimento que, pelo culto da paixão, esvaziou de significado a dura luta racionalista pela objectividade da razão. Giambattista Vico atacou amargamente Descartes, o seu racionalismo e o seu método dedutivo; tal como Johann Herder, Vico aprecia a importância do irracional na vida e sublinha o papel da fé e da obediência religiosas, por oposição à reflexão filosófica, como o ingrediente essencial da vida social. Schopenhauer, conhecido sobretudo pelo seu pessimismo e pelo estilo sombrio, é apresentado como o verdadeiro filósofo romântico; ao optimismo racional de Hegel opõe a ideia budista de que a vida é essencialmente sofrimento, causado pelo desejo — pelo que a anulação do sofrimento é possível "eliminando todo o desejo" (ainda que o paliativo mais rápido de que dispomos seja a experiência estética); embora admirador de Kant, Schopenhauer afasta-se dele para negar a racionalidade da vontade.
[1] SOLOMON, Robert C; HIGGINS, Kathleen M. - Breve historia de la filosofía. Madrid: Alianza Editorial, 1999
[04/04/21]
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