As
relações do sujeito consigo mesmo, com os
outros e com as instituições
É frequente referir duas dimensões
da moral: o seu carácter social e a intimidade e a consciência
crítica do sujeito moral. Argumenta-se a favor
desta dupla dimensão com as ideias de que a)
sem a liberdade individual não há
moralidade (só pode ser moralmente obrigado o sujeito
livre); b) o homem é um ser social e
qualquer dos seus actos afecta de algum modo os que com ele
vivem.
Contudo, não é pacífico
o modo de entender a relação entre essas dimensões.
Segundo a teoria do egoísmo
ético, por exemplo, a pessoa deve agir em função
do seu interesse pessoal [O capítulo 6 de "Elementos
de filosofia moral" de James Rachels (dados bibliográficos
aqui) analisa o egoísmo
ético, apresentado argumentos a favor e argumentos contra
essa teoria].
No livro "Ética como amor propio"
[dados bibliográficos aqui]
Savater fundamenta a ética
no amor próprio (expressão que
prefere a "egoísmo" -- ver as razões
na página 39) e na auto-afirmação: nenhuma
ética laica nos impõe a renúncia ao que
somos, antes pretende a melhor realização do que
somos. Savater contraria assim "a venerável tradição
da moral renunciativa, de inspiração primordial
mas não exclusivamente cristã,
que situou na superação ou até mesmo na
abolição do amor próprio (ou o também,
de um modo mais censório, chamado "egoísmo")
e na correspondente potenciação do altruísmo
a própria essência da opção ética"
(p. 35). Ora "chamamos 'valor'
e concedemos valor àquilo que mais nos interessa: isto
é válido tanto para a ética como para o
direito e a política"
(p. 30); "O que queremos aqui deixar assente é que
o dever moral não é senão a expressão
racionalmente consequente do querer (ser) humano"
(p. 39). Como é que uma moral caracteristicamente antiegoísta
como a kantiana [ver abaixo,
ponto 3] "pode no entanto centrar-se no lema de que cada
homem é um fim em si mesmo e preconizar a autonomia
moral do sujeito?" (p. 37)
Esta teoria de Savater não implica
a recusa do(s) outro(s). "O essencial é que eu sou
eu para mim não contra os outros mas porque
há outros. O apego do eu a si mesmo, à sua própria
conservação, benefício e potenciação
não é algo inimizado com a sociabilidade mas,
pelo contrário, exige-a". "O eu que sabe o
que lhe convém -- quer dizer, de onde provém e
como durar mais e melhor -- não só não
é associal, como pelo contrário interioriza e
reforça as razões da sociabilidade. Talvez se
pudesse sublinhar que o que se recusa não é tanto
o egoísmo como o egocentrismo" (p. 37). Constitui-se,
assim, o egoísmo como autêntico fundamento da sociablidade;
mais: não há solidariedade nem altruísmo
efectivos que não partam do mais primário egoísmo,
por muito que o transcendam -- "o sujeito sabe que ninguém
preservará o seu ser (humano) e o potenciará se
ele mesmo o não fizer, quer dizer, no lugar da sua liberdade
não pode haver ninguém mais do que ele próprio;
mas esse eu que tenta conservar e potenciar não é
nada sem o reconhecimento humano, sem a vinculação
social" (p. 50).
Embora Savater reconheça as influências
de Espinosa sobre a sua teoria
(ver p. 39, por ex.), expressamente afirma que o "grande
teórico moderno da fundamentação dos valores
sobre o amor próprio foi Thomas
Hobbes" (p. 51).
[tradução do texto de Savater de A. Gomes]