…um estudo empírico
ou a posteriori; é um estudo conceptual ou a
priori. A melhor maneira de perceber isto é através
de um exemplo.
Imagina que queres saber se há vida em
Marte. Não é possível resolver este problema
unicamente através do pensamento. É preciso dispor
dos dados enviados pelas sondas que foram para Marte, fazer observações
e medições, etc. Todas essas coisas fazem parte da
experiência empírica: são maneiras de recolher
informação acerca do mundo.
Mas os problemas da filosofia não se resolvem
olhando para o mundo para recolher informação. Não
podemos decidir se o Homem é livre ou se a vida faz sentido
recolhendo informação do mundo. É por isso
que dizemos que a filosofia é um estudo conceptual. Queremos
dizer que a filosofia se faz unicamente com o pensamento.
Todavia, isto não significa que não
podemos usar informação sobre o mundo. Na verdade,
sempre que isso é relevante, temos de usar informação
sobre o mundo. O estudo filosófico é a priori,
mas temos de ter informações sobre tudo o que for
importante para a solução dos problemas que estamos
a tratar. Muitas vezes essa informação é fornecida
pelas ciências, pelas artes ou pelas religiões. Não
podemos discutir filosofia da religião sem nada saber de
religião. Nem podemos discutir filosofia da arte sem nada
saber de arte.
Quando chegamos a este ponto podes pensar que
as ideias filosóficas não passam de uma confusão
e que nada há para discutir — precisamente porque é
algo que não podemos decidir recorrendo à experiência.
Mas as coisas não se decidem unicamente recorrendo à
experiência; as coisas decidem-se também recorrendo
ao pensamento. E é isso que se faz na filosofia: recorremos
à argumentação filosófica para resolver
os problemas, do mesmo modo que em matemática recorremos
à argumentação matemática.
Quando começamos a pensar nas razões
que nos levam a pensar que em filosofia nunca se chega a lado nenhum
começamos a fazer filosofia. É por isso que a filosofia
é inevitável. É inevitável porque não
é mais do que a procura sistemática de justificações
sensatas para as nossas ideias mais básicas — mesmo
as nossas ideias acerca da própria filosofia. É neste
sentido que a filosofia se opõe ao dogmatismo:
nenhuma ideia tem o direito de suplantar quaisquer outras ideias,
enquanto não mostrar que é realmente melhor do que
as outras.
(VVAA – A Arte de Pensar: Filosofia,
10º ano [dados bibliográficos aqui],
vol. 1, p. 16-17. Adaptado) |