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Esta é uma ficha de trabalho relativa à unidade inicial do programa de Filosofia do 10º ano (ano lectivo de 2004/05)
 
 

 

Filosófico... sim ou não?

 

Justifique se as seguintes questões/teses/argumentos são filosóficos:

a) Qual é a composição da água?

b) Somos livres (o Homem é livre?)

c) Deus existe — basta ler a Bíblia!

d) Para 70% dos árabes o Islamismo é a única religião verdadeira.

e) É boa toda a acção que é útil ao maior número de pessoas.

f) Deus não existe — se existisse, não haveria mal no Mundo.

g) Como fazer um aborto de modo que a mulher que aborta corra o menor número de riscos possível?

A filosofia não é…

…um estudo empírico ou a posteriori; é um estudo conceptual ou a priori. A melhor maneira de perceber isto é através de um exemplo.

Imagina que queres saber se há vida em Marte. Não é possível resolver este problema unicamente através do pensamento. É preciso dispor dos dados enviados pelas sondas que foram para Marte, fazer observações e medições, etc. Todas essas coisas fazem parte da experiência empírica: são maneiras de recolher informação acerca do mundo.

Mas os problemas da filosofia não se resolvem olhando para o mundo para recolher informação. Não podemos decidir se o Homem é livre ou se a vida faz sentido recolhendo informação do mundo. É por isso que dizemos que a filosofia é um estudo conceptual. Queremos dizer que a filosofia se faz unicamente com o pensamento.

Todavia, isto não significa que não podemos usar informação sobre o mundo. Na verdade, sempre que isso é relevante, temos de usar informação sobre o mundo. O estudo filosófico é a priori, mas temos de ter informações sobre tudo o que for importante para a solução dos problemas que estamos a tratar. Muitas vezes essa informação é fornecida pelas ciências, pelas artes ou pelas religiões. Não podemos discutir filosofia da religião sem nada saber de religião. Nem podemos discutir filosofia da arte sem nada saber de arte.

Quando chegamos a este ponto podes pensar que as ideias filosóficas não passam de uma confusão e que nada há para discutir — precisamente porque é algo que não podemos decidir recorrendo à experiência. Mas as coisas não se decidem unicamente recorrendo à experiência; as coisas decidem-se também recorrendo ao pensamento. E é isso que se faz na filosofia: recorremos à argumentação filosófica para resolver os problemas, do mesmo modo que em matemática recorremos à argumentação matemática.

Quando começamos a pensar nas razões que nos levam a pensar que em filosofia nunca se chega a lado nenhum começamos a fazer filosofia. É por isso que a filosofia é inevitável. É inevitável porque não é mais do que a procura sistemática de justificações sensatas para as nossas ideias mais básicas — mesmo as nossas ideias acerca da própria filosofia. É neste sentido que a filosofia se opõe ao dogmatismo: nenhuma ideia tem o direito de suplantar quaisquer outras ideias, enquanto não mostrar que é realmente melhor do que as outras.

(VVAA – A Arte de Pensar: Filosofia, 10º ano [dados bibliográficos aqui], vol. 1, p. 16-17. Adaptado)

 

©Out/2004


 
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