| ALGUMAS
IDEIAS/ACTIVIDADES
Não há discussão ou desacordo
sobre a conduta de uma pessoa, a elegância de uma mulher,
a justiça de uma sentença ou o agrado de uma comida,
que não suponha a rabertura da problema´tica sobre
os valores (Risieri FRONDIZI - Qué son los valores?)
Percurso em torno de 3 conjuntos de questões:
I. A experiência valorativa faz parte do
nosso quotidiano; facilmente abandonamos a neutralidade de uma frase
como "Beethoven compôs 9 sinfonias" para a apreciação
"A 9ª é a mais bela"; ou passamos
da indiferença que supõe a constatação
de que "Em Lurdes há um santuário" para
a declaração "Devemos estar nele com respeito".
Beleza e respeito -- estamos no domínio
dos valores. O que (não) é
um valor? Como podemos reconhecer um valor?
-
Um valor não é
um facto. Um facto é uma realidade constatável
ou um acontecimento susceptível de ser atestado por
várias pessoas: coisas, pessoas, acontecimentos, instituições...
Formulamos um juízo de facto [esclareça
o conceito de juízo]
quando descrevemos aquilo que vemos, ouvimos, sabemos: por
ex., "Garfield é um gato". Mas, ao afirmar
"O meu vizinho é simpático", formulei
um juízo de valor.
-
"Reconhecer um certo aspecto das coisas como um valor
consiste em tê-lo em conta na tomada de decisões
ou, por outras palavras, em estar inclinado a usá-lo
como um elemento a ter em consideração na escolha
e na orientação que damos a nós próprios
e aos outros" (Simon Blackburn - Dicionário de
Filosofia -- elementos bibliográficos aqui).
Os valores dependem das relações que as coisas
a que são atribuídos têm com a pessoa que
os atribui: o pôr do sol é belo porque me agrada.
-
Portanto, um valor não é uma qualidade que pareça
estar no objecto como a cor está na tela: não
se olha a beleza de uma paisagem -- olha-se a paisagem e é
a maneira de olhar que revela a beleza (Ruyer). Ou seja: os
valores não são qualidades sensíveis
das coisas (como a cor, por ex.) -- embora as propriedades valiosas
estejam baseadas nas qualidades das coisas. Os valores também
não são objectos (relógios, livros...)
-- embora atribuamos valor às coisas. Os valores não
são ideias (como, por ex., os objectos matemáticos:
a recta, o triângulo...).
-
Os valores são bipolares (contrapõem-se
num pólo positivo e num pólo negativo: verdade/falsidade;
justiça/injustiça...) e hierarquizáveis
(subordinam-se uns aos outros: uns valem mais do que outros.
A justiça, por ex., vale mais do que a elegância).
[sobre estas características, pode ler Ensaios sobre
o Progresso de Manuel García Morente).
-
[LEIA, n'O Canto, o texto O
conceito de valor, onde os valores são abordados
como comportamentos preferenciais]; [FAÇA
o exercício Facto e valor]
- Para uma visão diferente LEIA ainda o
capítulo 14 (Valores) do livro Sabedoria sem
respostas [dados bibliográficos aqui].
Nele os autores analisam a possibilidade de deixarmos de expressar
os nossos valores (e os nossos juízos de valor) aos outros,
substituindo os juízos de valor pelos juízos de
facto -- e ainda a possibilidade de deixarmos de pensar em juízos
de valor em privado, para nós mesmos. "Diz-se por
vezes que uma vida sem valores seria impossível ou pelo
menos não seria reconhecivelmente humana. Contudo, é
interessante notar que se o leitor conseguisse abster-se de fazer
ou pensar sobre juízos de valor, também os outros
o poderiam. Em teoria, portanto, poderíamos ver-nos a nós
mesmos e ao mundo sem valores, aparentemente sem nada perder que
seja essencial às nossas vidas" (152). Pelo contrário:
acrescentar-se-ia "clareza e imediatez" (154), abandonando
o instrumento de auto-ilusão em que se pode transformar
a valoração. "Despojado dos seus valores, o
leitor ficaria nu, não mais julgando a sua vida valorativamente:
vivendo-a apenas; não mais julgando a vida dos outros valorativamente:
interagindo apenas com eles" (155).
II. As preferências
e valores variam em função da pessoa, do grupo social
e, sobretudo, da cultura (ver programa). Será possível,
apesar disso, encontrar valores universalmente
válidos? O relativismo
axiológico defende que
os valores de uma pessoa ou de um grupo de pessoas são tão
bons e tão válidos como os de quaisquer outras pessoas
ou grupos (A. Lockwood - Visão crítica sobre a
clarificação dos valores); tal teoria será
correcta -- ou, mesmo tratando-se de valores como o bem, o belo,
a justiça..., os pontos de vista não são todos
iguais?
- O capítulo 2 [O desafio do relativismo cultural]
do livro Elementos de Filosofia Moral de James Rachels
[elementos bibliográficos aqui]
avalia 6 proposições apresentadas por relativistas
culturais, tentando "identificar o que está correcto
no relativismo cultural" e "denunciar o que está
errado" (p. 37):
- Sociedades diferentes têm códigos morais
diferentes;
- O código moral de uma sociedade determina o que é
correcto no seio dessa sociedade, isto é, se o código
moral de uma sociedade afirma que certa acção
é correcta, então essa acção é
correcta, pelo menos nessa sociedade;
- Não há qualquer padrão objectivo que
se possa usar para ajuizar um código social como melhor
do que outro;
- O código moral da nossa própria sociedade
não tem estatuto especial, é apenas um entre
muitos;
- Não há uma "verdade universal" em
ética, isto é,
não há verdades morais aceites por todos os
povos em todos os tempos;
- É mera arrogância nossa tentar julgar a conduta
de outros povos. Deveríamos adoptar uma atitude de
tolerância face
às práticas de outras culturas.
III. Esteja o relativismo axiológico certo
ou errado, a relatividade dos valores é um facto. Face a
essa diversidade cultural (no que respeita aos valores), que atitude(s)
assumir? de tolerância? e o que é ser tolerante? --
Neste contexto o quê devemos entender por conceitos como diálogo
intercultural, tolerância,
etc.?
- O texto A tolerância
responde à questão: ser tolerante é tolerar
tudo?
- Num outro texto, Agostinho da
Silva fundamenta a necessidade da tolerância.
- No dossier Tolerância
encontra outros recursos.
[OBSERVAÇÕES
DO PROGRAMA]
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